quinta-feira, 8 de março de 2012

É possível remar dois barcos?

Desde muito nova tive vários interesses. Sempre gostei de moda, decoração, antropologia, artes, fotografia, psicologia, literatura, geografia, direito, politica...acho que dá para perceber isso aqui no blog. Posto sobre vários assuntos. Sempre fui muito curiosa e observadora. Eu sempre quis fazer Direito, mas no meus momentos de sonhar, eu queria ser um monte de coisa. 
Sempre escutei do meu pai que não dá para remar em barcos diferentes. Que é preciso escolher um barco e remar com todas as forças. Que quando temos mais de um barco, remamos muito e não chegamos em lugar algum. Temos que escolher um barco e deixar os outros no porto. Só é possível desbravar mares com um único barco. Cresci achando que isso fosse verdade.
Quando fui para a Suécia, apareceu pela primeira vez a possibilidade de mudar de barco, ou seja, de trocar o Direito por outra coisa do meu interesse. Mas meu tempo de imigrante não foi tão longo assim e quando mais ou menos dominava a língua e iria começar minha procura por um outro ramo e vim embora. Muita coisa ficou para trás, mas o sonho de trocar de barco me acompanhou.
Cheguei aqui e fui taxativa com a família, disse que não queria advogar. Os motivos que me fizeram querer outro barco são muitos, mas isso não vem ao caso. 
Logo que cheguei, comecei a pensar em várias coisas. Quase comprei uma loja de decoração, mas o negócio não deu certo e eu continuei minha busca por um barco novo. Pensei em várias possibilidades, mas não chegava a nenhuma conclusão. O tempo foi passando, a necessidade/ansiedade para começar a trabalhar falou mais alto e eu acabei voltando a advogar. Voltei em câmera lenta, mas voltei...voltei porque era comodo para mim, afinal eu formei em Direito e meu pai é advogado. 
Mais uma vez, a figura/fala do meu pai apareceu com força total. Acho que rolou uma pressão para eu voltar a advogar. 
Talvez essa pressão só exista na minha cabeça. 
Talvez eu tenha criado uma imagem de um pai muito controlador e manipulador. 
Talvez eu tenha criado uma imagem de pais muito severos, porque eu sempre me surpreendo com as atitudes deles, de sempre me apoiar e não exigir nada. 
Talvez eu tenha criado muita coisa que não corresponda a realidade...
Mas o fato é que no fundo eu continuo querendo mudar e fico com essa luta interna, querendo justificar muita coisa e com medo de me lançar em projetos mais ousados. 
Ainda não sei que caminho tomar, nem em qual barco remar. Só existe a certeza que quero mudar de barco ou talvez remar em dois ao mesmo tempo, o que seria um problema, afinal não dá para remar em distintos barcos!!!
Mas hoje, eu descobri que eu posso sim mudar de barco ou remar dois barcos. Essa conclusão só foi possível depois que eu me dei conta que meu pai rema dois barcos diferentes e todos dois estão bem. Meu pai é fazendeiro (cultiva café e cria gado) e é advogado e juiz de direito aposentado. Ele rema muito bem os dois barcos dele. Advogado famoso na região, conhecido como advogado das causas impossíveis e fazendeiro que colhe muito café, cria gado e está sempre atento aos métodos para aumentar a produtividade. 
Ele sempre falou um coisa para mim e fez outra. Ele sempre remou dois barcos: o barco do Direito e o barco da Agricultura e Pecuária. 
Pronto, resolvi a questão. Eu posso sim mudar de barco ou remar dois barcos.
Se eu criei um pai severo com as escolhas profissionais eu também consegui enxergar que é possível ter interesses distintos e conciliá-los.


Um comentário:

Nara disse...

Luciana, que post maravilhoso! Ele retrata também o que passei e estou passando, especialmente uma escolha profissional errada para poder agradar meus genitores. A gente sempre acha que eles, por serem mais experientes, sabem o que é certo para nosso futuro e eu, nem tive escolha, se quisesse um curso superior, só seria apoiada caso fosse direito. Mesmo odiando o curso com todas as forças. Hoje sou feliz por não precisar da área jurídica, por ter a possibilidade de escolher sozinha qual barco vou seguir. Claro que com a língua nova e filhos tudo fica bem mais demorado, mas eu não desvio o meu foco e agarrarei essa possibilidade de ser o que quero ser e não o que os outros decidiram para mim. Espero de coração que você também consiga, especialmente qdo vc tem pais que te apoiam . Um beijo, querida!