terça-feira, 22 de março de 2011

Tácito Pacto


Como já disse aqui, minha tia, antigamente, escrevia contos narrando alguns episódios da família. Inclusive já postei um aqui: "Um Conto de Natal" . Sempre tive vontade que ela escrevesse mais e publicasse esses contos. Durante muito tempo pedi para ela me dar uma copia, ela sempre enrolava, dizia que ia procurar nas inúmeras caixas de papel da casa dela e nunca me dava. Dessa vez que fui ao Brasil pedi novamente, antes mesmo da passagem do meu irmão. E foi diferente, ela procurou e encontrou os contos, talvez ela procurou motivada pela passagem dele e na tentativa de resgatar mais essas memórias dele. Ela me deu autorização para publica-los aqui e fazer a revisão e a alteração em alguns pontos. Assim vou começar esse trabalho, motivada pela vontade de relembrar mais momentos do meu único irmão.

"Era um Sábado! Gérbera chegou voando de Varginha, onde fazia Letras, numa faculdade de finais de semana. Esbaforida, desceu da carona, ali mesmo perto do busto de Dona Ambrosina. Em dois passos, atravessou a larga avenida. Entrou na Santa Casa com o coração na mão, como se fosse tirar o pai da forca.
- Ingrata! Não me prometeste que não iria parir durante minha ausência? Disse Gérbera com a voz engasgada, mal olhando para a jovem mãe, já inclinada no bercinho da criança.
- Deus o abençoe, meu afilhadinho adorado! Alisava suas mãozinhas pequeninas, seu rostinho rosadinho e sua cabecinha, quase sem cabelos...
Admirava com profunda ternura o belo bebê que dormia serenamente com um tricozinho azul piscina, embrulhadinho num mantinho, também azul...
Naquele instante, foi travado um tácito pacto entre os dois:
- Seremos sempre amigos! Muito mais que madrinha e afilhado! Dali não saiu mais! Sempre ao lado dele, mesmo que muitas vezes a quilómetros de distância...
Agora, sim...
Voltou-se para a jovem e abençoada mãe, que sorria iluminada, diante de sua bela obra. Deu-lhe um beijo:
- Tiu! Não tenho palavras...
Ao lado da cama , orgulhoso, num sorriso de orelha a orelha, decretou Abelardo:
- É menino homem! Como eu queria!
Saíram da Santa Casa, direto para a casa do vô. A alegria era geral!
Na manhã seguinte, Ingrid, às seis da manhã, acorda Gérbera em seu quarto:
- Emmanuel está todo cagado! Vamos trocar a fraldinha?
Infelizmente o resguardo acabou e a família retornou para Perdões...
A casa ficou vazia, triste, todos reclamavam!
Sempre que podia, Gérbera estava lá para beijar e colocar-lhe a bênção... - Lindinho da dindinha!
Julho. Uma noite fria. Emmanuel chorava muito. Ingrid exausta não sabia mais o que fazer para acalentá-lo. Emmanuel estava com saudade da madrinha...
Gérbera tomou a criança nos braços, ninou-a um pouquinho, envolveu-a no seu peito amoroso. Emmanuel foi parando de chorar e logo já dormia profundamente.
- Vamos colocá-lo no berço? Propôs Ingrid satisfeita! Mas Emmanuel começou a chorar novamente...
Voltou para os braços de Gérbera...
Na manhã seguinte, Ingrid vem pegar Emmanuel que ainda dormia serenamente no tronco da madrinha enquanto ela dormia também, no sofá da sala. Ingrid pensou: - Que perigo! O menino poderia ter caído durante a noite!
Crescera sadio, conservando sempre sua alegria e simpatia natural... Sempre recebia com muito carinho a madrinha.
- Quer um cafezinho? Oferecia ele, segurando uma bandejinha de brinquedo de Alice, sua irmã que nasceu três anos depois daquele sábado que travaram o pacto de serem sempre amigos.
Outra vez, aquele toquinho de gente, com a bolsa de Gérbera pendurada no pescoço, gritava lindamente: - "Ói o cocoé coco!" - "Ói o cocoé coco!" Imitando os meninos que vendiam picolé em caixinhas de isopor.
Já maiorzinho, começou a intrigar as meninas... Quantas namoradinhas... Mas sonhava mesmo, era com uma moça especial: - Mãe! Quando eu tiver um pouco mais de idade vou a Londres! Quero conhecer uma bela °Inglaterrana" para ser sua nora!
Que maravilha! Agora Emmanuel no auge dos seus dezesseis anos, todo alinhado em um belo terno e gravata, dançando a primeira valsa da segunda formatura com sua madrinha querida! Quem já viveu uma alegria assim?
Hoje, formoso rapaz. Formou-se advogado. Inteligente, carteira da OAB, no primeiro exame! Elegante vai ao Fórum, como fora Abelardo. Na sua primeira audiência, elogiado, até pelos funcionários da casa...Porém nunca perdera sua simplicidade. Feliz por ter cumprido parte de seu juramento: o de defender os injustiçados!
- Graças a Deus! O pobre homem já está em casa desfrutando da companhia da mulher e dos filhos! Concluiu ele, agora com natural orgulho do moderno "rábula°, recém formado!
Agora imaginem só: virou chantagista da própria madrinha, aquela com quem firmara pacto de amizade em seu primeiro dia de vida!
- Gérbera! Vou me encontrar com aquele "primo" e revelar a ele sua admiração!
- Vou dizer-lhe que você adora passear na Fazenda com um "Eco Sport".
Apreensiva Gérbera pede: - Ô! Meu filho! Não faça isso, por favor!
Maroto ele sai sorrateiro, com aquele sorrisinho que só ele tem e pensando: - Eu nunca vou fazer isto com ela!"
Autora: Maria Consuelo
Colaboradora: Luciana

(Emmanuel: meu único irmão Alexandre, Gérbera: minha tia Con, Ingrid: minha amada mãe, Abelardo: meu querido pai, Alice: eu)



Acabo de escrever isto com a certeza que amo meu único irmão de uma forma ainda mais intensa. Sempre estaremos juntos, em sintonia. Mesmo enquanto eu estiver do lado de cá e ele do lado de lá. Os laços de amor sempre se fortalecem, independente da distância física.

Um comentário:

Nara disse...

Lindo Conto, Luciana!Uma linda forma de lembrar do seu irmão.
um grande beijo